Experiência materna: depressão pós parto e baby blues

Eu já havia perdido uma filha tão amada, tive uma gestação complicada, ela nasceu muito cedo e muitíssimo pequena. Não chorou ao nascer, viveu quase 2 meses em uma UTI neonatal entubada, e meu sonho de ve-la crescer, dissipou-se com sua partida. Com a ajuda de Deus aguentamos a dor e prosseguimos. Mas a vontade de desempenhar meu papel de mãe ficou aqui, me cutucando, me machucando, me fazendo sentir culpada por algo que não estava no meu controle. Resolvi engravidar de novo. O positivo veio com um transbordar de sentimentos, e o medo nos perseguiu, mas confiamos. Uma gravidez de repouso, de cuidado, de zelo e de medo. Internei com 34 semanas e o medo que já morava ali, abriu a porta. Ele não mechia em meu ventre. Eu só podia pedir, por favor Deus, por favor. Suplicar. Ele nasceu naquela manhã, ele teve que nascer antes como a irmã, mas não era tão cedo com ela, ia dar tudo certo. Era o meu pedido, minha suplica, meu desejo. Ele nasceu. Não podia ve-lo, era prematuro, ia direto para UTI como a irmã. Mas algo diferente aconteceu, seu choro ecoou pela sala de cirurgia, ele chorava estridente. Ele chorava. E eu chorei e agradeci. Que explosão de sentimento foi esse. Que amor é esse. Ele chorou. E eu derramei lágrimas de gratidão, felicidade, alívio e amor. E ali estava eu, deitada em uma maca, esperando para conhecer meu menino. Me levaram para o quarto, e para minha surpresa, ele me aguardava lá. Ele não precisou de UTI. Quanta felicidade e alegria, quanto amor, quanta gratidão. Poder sentir seu corpo envolto em meus braços, foi a melhor sensação da minha vida. É algo inexplicável, um sentimento surreal. Mas, depois. Depois de quatro noites sem dormir, tentando amamentá-lo. Meus seios fartos de leite. Meu bico plano. Meu bebê pequeno de 2 kg e prematuro. Me deparei, mesmo diante da minha formação como enfermeira, com o desespero. Meu conhecimento não servia. Eu não sabia amamentar. Ele chegava a ficar com baixo índice glicêmico, pois não mamava e era prematuro. Que desespero. Mas, depois daquelas quatro noites sem dormir. Depois do desgaste físico e mental. E diante daquele medo de perde-lo. Eu me perdi. Uma tristeza profunda me invadiu. O que para os outros era tão simples, para mim era uma montanha de sentimentos. Eu queria ir embora dali, mas não podia. Eu queria sumir. Eu não era capaz. Ele merecia alguém melhor como mãe. Me desesperei, não sabia mais aonde estava aquela mulher que eu era, até meu corpo não era o mesmo. Eu me transformei. Eu chorava quase o tempo todo. Eu sentia raiva. Raiva de mim mesma. Por que eu não conseguia? E se eu perde-lo também? Será que não nasci para ser mãe? Eu me perdi no medo, no desespero e em uma tristeza aterrorizante. Eu o olhava e o amava, queria protege-lo. Mas não conseguia dar meu amor a ele. Eu não conseguia. Eu realmente me perdi. Foi terrível. Eu achei que não tinha volta. A minha mãe, a mãe da mãe, coitada. Fazia de tudo para ajudar, mas como ajudar sua filha perdida e depressiva. Eu descontei nela minha frustração. Me perdoa mãe, eu pensava. Mas eu não conseguia agir como queria. Eu não me encontrava. E o meu marido, coitado. Não sabia como ajudar, ele também era novo nisso. Foi então, que um olhar de fora, enchergou meu problema. Quando me viu transformada, chorando, descabelada, transtornada, me disse você precisa dormir. Você precisa se cuidar. Aquele olhar foi enviado por Deus. E eu pensei, como? Ele não mama. Se eu dormir ele não terá leite. Ele vai ter queda na glicemia de novo. Não posso dormir. Não posso. Mas ela me medicou. Me medicou para dormir 8 horas seguidas. Mas, de tão transtornada, dormi apenas 2 horas e meia. Mas, foi aí que comecei a me encontrar. Ainda havia momentos de tristeza profunda, mas agora eu podia ver a luz no fim do túnel. Eu o amava tanto, e me sentia mal por não conseguir demonstrar. Recebemos alta. Ele era só nosso agora, nossa responsabilidade. Que medo. Mas ao chegar em casa, tudo foi se ajeitando. Eu fui me reconstruindo, fui me encontrando. Não foi fácil, mas aos poucos a tristeza foi se dissipando, se esvaindo, até sobrar somente o amor pelo meu bebê. Foi difícil, mas me achei. Porém, não sou a mesma mulher que eu era e nunca mais voltarei a ser.

Hoje eu sei, passei pelo chamado baby blues. Tristeza  ou melancólia materna. Um transtorno pós parto, que ocorre em muitas mulheres, desencadeado pela alteração hormonal pós parto e estresse. O que influenciou também foi o peso que carregava por já ter perdido uma filha. Eu poderia ter tido uma depressão pós parto, que é algo mais sério, mas alguém me olhou e me ajudou, e minha mãe e marido me apoiaram. Se você sentir algo assim, procure ajuda e apoio. Depressão pós parto é uma doença e tem tratamento. O baby blues normalmente passa em alguns dias, mas também necessita de apoio.

Lirian tairy

Beijo

_______

Siga no Instagram e Facebook @ maternidadeintuitiva

Visite o blog e veja o post que fiz sobre como indentificar os sintomas de depressão pós parto.

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s